domingo, agosto 21, 2005

Juramento


Das razões do juramento
Há anos seguimos uma tradição em nossos cursos da área de saúde, que é a de ensinar o juramento de Hipócrates de Kós. Nossos alunos, com a simplicidade genial dos jovens, perguntam: "Vale o juramento?", durante as avaliações. Já sabem a resposta. Vale, sim. É um estratagema para que memorizem o Juramento, válido por toda a vida, feito no final de seus cursos. É que, se errarem uma questão, mostrar que conhecem o texto completo evita que zerem. As razões para esta atitude, que alguns consideram desnecessária, são basicamente duas: os alunos precisam saber que são herdeiros de uma longa tradição de procedimentos de cura, desde a pré-história, mas que foi Hipócrates o primeiro a dar ao conhecimento um espírito científico . A Segunda razão é que se empenham em memorizar voluntariamente um texto que desperta a consciência da responsabilidade das profissões da área de saúde, o respeito ao paciente, e a ênfase de que, mais do que um conjunto de técnicas, sua atuação futura será pura arte, e, como tal, deverá ser mantida pura. Um juramento é uma afirmação ou promessa solene, em que se invoca por testemunha o divino e sagrado, representando falta grave, sob qualquer ponto de vista, fazer um juramento falso.A história da arte de curar começa sistematicamente na Antigüidade Clássica, na Grécia, onde Esculápio ou Asclépio, filho de Apolo e Corônis, é tirado do corpo de sua mãe, morta por adultério, e ensinado pelo Centauro Quíron, o primeiro cirurgião. Asclépio, teve filhos homens ( Macaón, cirurgião da Guerra de Tróia, e Podalírio, o pai da Psiquiatria) e filhas mulheres ( Panacéia, a que conhecia remédios para todas as doenças; Higéia, que cuidava da saúde das coletividades; Áceso, a que cuidava dos doentes; e Iaso, a Cura). Haviam templos de Asclépio por toda a Grécia, templos de cura, em montanhas cobertas pela vegetação e próximas a fontes de águas minerais. Haviam serpentes sagradas, e os curadores comiam serpentes para adquirir o dom da cura. Este procedimento de crença nas serpentes tem cerca de seis mil anos, e se baseia numa lenda sumeriana, a epopéia de Gilgamesh. Gilgamesh é um herói que combate ao lado de Enkidu, seu amigo, que é ferido de morte. Gilgamesh sai em busca da planta que confere a imortalidade, e a consegue, depois de várias peripécias. Mas adormece num remanso, e uma serpente lhe arrebata a planta. Por esta razão iniciou-se um mito, o de que serpentes estão relacionadas à cura. Uma serpente enrolada num caduceu, ou num cálice vem sendo usada há séculos como símbolo da arte de curar. Nos templos de cura de Asclépio, o tratamento começava com ensinamentos, preces, sacrifícios, banho nas fontes, unção com óleos, massagens, interpretações de sonhos. As serpentes sagradas lambiam as partes doentes. Eram dados remédios, sagrias, dietas, conselhos e sugestões. Se o doente não se curasse é porque não tinha fé suficiente ou porque não havia realizado bem os rituais. Os curados agradeciam pendurando escritos e objetos nos templos e atirando ouro nas fontes sagradas. Inicia-se com Asclépio a nooterapia, a cura pela mente, "purifica tua mente e teu corpo estará curado". Mais tarde, o poeta latino Décimo Júnio Juvenal ( I - II d.C. ) diria: "Orandum est ut sit mens sana in corpore sano" ( o que se deve pedir é que haja uma mente sã num corpo são). Hipócrates de Kós ( 460 - 370 a. C.), considerado fundador e pai da Medicina, de onde se originam profissões como a odontologia profissões como a Odontologia, Fisoterapia, Psicologia, dentre muitas outras, nasceu na ilha de Kós, próxima à Turquia, entre o Mar Egeu e o Mar de Creta, onde Asclépio possuía m templo. Hipócrates era filho de um médico, e desenvolveu uma concepção científica das doenças, afastando-se da filosofia e da religião na busca de explicações casuais Hipócrates valorizava o clima, o ambiente, a alimentação e o modo de viver dos doentes. Seus escritos "Ares, Águas, Lugares", "Epidemias" e outros foram compilados no "Corpus Hipocrático" por estudantes alexandrinos no século II, constando de prescrições, casos clínicos e aforismos: "A vida é breve, a arte é longa", "Difícil é a decisão", "A crise é passageira, e a experimentação arriscada". Hipócrates iniciou o método de ficar à cabeceira da cama do doente , o médico de família, o curador que mostra compreensão e compaixão. Acreditava que as doenças originavam-se do desequilíbrio dos quatro humores ( "Khymós"): o sangue, quente, do coração; a fleuma, muco ou linfa, fria, do cérebro; a bile amarela, seca, do fígado; a bile negra, úmida, do baço. A desarmonia dos humores era a discrasia; e a predominância de um dos humores dava ao temperamento da pessoa, idéia desenvolvida por Galeno, em Roma, no século I d. C. : temperamentos sanguíneo, fleumático, colérico e melancólico. Foi Hipócrates que desenvolveu os conceitos de crônico, exacerbação, recaída, resolução, crise, paroxismo, convalescença.São estas, portanto, algumas de nossas razões em perpetuar a tradição. Educa-se também com exemplos, e dando-se princípios. É claro que a arte de curar vem mudando. Mas o espírito das profissões da área de saúde, não. Continuam sendo importantes a competência, a dedicação, a perícia, a compaixão, a disponibilidade, o amor à arte. Só honra quem tem honra. Num mundo em que os valores relativizam-se e tudo parece certo e possível, convém resgatar os verdadeiros valores da humanidade. Foi com muita alegria e com os olhos brilhando que ouvi pela primeira vez, há dois anos, uma turma inteira afirmar , em uníssono, o Juramento de Hipócrates de Kós. Não por orgulho, Deus nos livre disto, mas por sentir que meus trinta anos de magistério estavam coroados pela fé no ser humano, e, portanto, plenos de sentido.Embora existam várias versões, esta é a mais seguida há décadas em nossa região. Eis o famoso ( e atual ) Juramento de Hipócrates de Kós para os profissionais da área da saúde:"Prometo que, ao exercer a arte de curar, mostrar-me-ei sempre fiel aos princípios de honestidade, caridade e ciência. Penetrando no interior dos lares, meus olhos serão cegos, e minha língua calará os segredos que me forem revelados, o que terei como preceito de honra. Nunca me servirei de minha profissão para corromper os costumes ou favorecer o crime. Se eu cumprir este juramento com fidelidade, goze para sempre minha vida e minha arte de boa reputação, entre os homens; se o infringir ou dele me afastar, suceda-me o contrário".

Alitta Guimarães C. R. R. SilvaMédica Pós-graduada pela UNICAMP e professora da Unincor
Referências bibliográficas:Brandão, J. : "Dicionário Mítico-Etimológico",Petrópolis, Vozes, 1991Calder, R. : "O Homem e a Medicina", São Paulo, Hemus, 1976Conselho Regional de Medicina de São Paulo: "SerMédico", ano IV, n. 14, 2000Melo: "A Medicina e Sua História", Rio de Janeiro, EPUC, 1989Spalding, T.: "Dicionário de Mitologia Greco-latina",BH, Itatiaia, 1965